4.3. Campo de visão

Uma câmara vê um cone do mundo à sua frente; tudo fora desse cone fica fora dos limites do sensor. A largura angular desse cone é o campo de visão (FOV), e é determinado por dois números – o tamanho do sensor e a distância focal da objetiva.

4.3.1. A fórmula do FOV

A vertical lens with a sensor of width S behind it at distance f. Two rays leave the top and bottom edges of the sensor, pass through the centre of the lens, and diverge into the scene on the far side, defining a cone whose full angle is labelled FOV.

Um sensor de largura \(S\) a uma distância \(f\) atrás da objetiva define um cone de raios incidentes. O ângulo total desse cone é o campo de visão.

Um sensor de largura \(S\) situa-se a uma distância \(f\) atrás da objetiva, perpendicularmente ao eixo ótico. O modelo de objetiva fina diz que um raio que atravessa o centro da objetiva continua sem deflexão, por isso trace um desses raios a partir de cada extremidade do sensor: cada um segue em linha reta pelo centro da objetiva e projeta-se para a cena do outro lado. Em conjunto, delimitam o cone de luz que o sensor consegue captar, e o ângulo entre eles ao nível da objetiva é o campo de visão.

Metade desse cone é um triângulo retângulo. Um cateto é o eixo ótico desde o centro da objetiva até ao centro do sensor – comprimento \(f\). O outro cateto é o meio-sensor desde o centro do sensor até a uma extremidade – comprimento \(S / 2\). A hipotenusa é o próprio raio, que vai do centro da objetiva até à extremidade do sensor.

O teorema de Pitágoras relaciona os três comprimentos dos lados, mas Pitágoras não fornece ângulos, e o ângulo no vértice da objetiva é o que procuramos. A trigonometria é a ponte entre as razões dos lados e os ângulos. Em qualquer triângulo retângulo, a tangente de um ângulo é definida como o seu lado oposto a dividir pelo lado adjacente. Para o ângulo de meio-FOV, o lado oposto é o meio-sensor \(S / 2\) e o lado adjacente é o cateto do eixo ótico \(f\), portanto

\[\tan(\text{half-FOV}) = \frac{S / 2}{f} = \frac{S}{2f}\]

O ângulo em si é obtido aplicando o inverso da tangente – a função arctangente – a ambos os lados:

\[\text{half-FOV} = \arctan \! \left( \frac{S}{2f} \right)\]

O cone é simétrico em relação ao eixo, pelo que o FOV total é o dobro do meio-ângulo:

\[\text{FOV} = 2 \cdot \arctan \! \left( \frac{S}{2f} \right)\]

Duas consequências decorrem da fórmula:

  • A distância focal da objetiva define o ângulo, não o tamanho absoluto. Uma objetiva «grande-angular» é larga porque a sua distância focal é curta – quanto menor for \(f\), maior se torna a razão \(S / 2f\), e mais largo o cone. Uma distância focal longa estreita o cone (uma objetiva «teleobjetiva»).

  • O tamanho do sensor também é importante. Montar a mesma objetiva à frente de um sensor mais pequeno corta o cone – a mesma objetiva tem um campo de visão mais estreito num sensor mais pequeno do que num maior. É por isso que os números de distância focal em câmaras diferentes não são diretamente comparáveis; o FOV depende tanto de \(f\) como de \(S\).

4.3.2. Três escolhas de objetiva

Considere um sensor de 4,8 mm × 3,6 mm (um tamanho de pequeno formato comum que corresponde aproximadamente ao que os sensores da OpenMV Cam fornecem) e três escolhas de objetiva.

distância focal

FOV diagonal

FOV horizontal

FOV vertical

descrição

2,8 mm

~94°

~81°

~66°

grande-angular

4 mm

~74°

~62°

~48°

normal

8 mm

~41°

~33°

~25°

estreito / tele

As três colunas passam pela mesma fórmula. O FOV diagonal utiliza \(S\) igual à diagonal do sensor \(\sqrt{W^2 + H^2}\) (6 mm para este sensor); o FOV horizontal utiliza \(S = W = 4.8\) mm; o FOV vertical utiliza \(S = H = 3.6\) mm. Reduzir a distância focal a metade quase que duplica cada cone; duplicá-la quase que os reduz a metade.

As fichas técnicas das objetivas publicam habitualmente o FOV diagonal como o número de destaque único, uma vez que abrange o sensor de canto a canto. Os FOVs horizontal e vertical são mais diretamente úteis quando se planeia o que caberá no fotograma, porque o fotograma é retangular e uma área de trabalho retangular é delimitada na horizontal e na vertical, não na diagonal.

4.3.3. Escolher uma distância focal

O FOV que a aplicação necessita é determinado pelo tamanho da região que a câmara tem de ver e pela distância a que a câmara estará. Se a câmara estiver a 1 m acima de uma área de trabalho de 0,6 m × 0,6 m, o FOV angular necessário para cobrir uma extremidade é \(2 \cdot \arctan(0.3 / 1) \approx 33°\), e a objetiva de 8 mm acima fica perto.

Optar por um FOV mais largo do que o necessário torna os objetos mais pequenos no fotograma, desperdiça pixels em segundo plano e aumenta a distorção da objetiva. Optar por um FOV mais estreito deixa partes da cena fora dos limites do sensor. A objetiva certa é a de maior distância focal que ainda cobre a área de trabalho à distância prevista para a câmara.